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Rian Abreu

Um cineasta com cara de designer.

Rian Abreu
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Sobre mim

1.

Até agora foram quatro anos transitando entre agências de publicidade e sets de filmagem, desenvolvendo o gosto por um tipo de criação bem específica: simétrica, bem enquadrada e com uma paleta de cores que faz o olho brilhar. Na minha cabeça, as funções podem até mudar de nome, mas, no fim, a minha assinatura é sempre a mesma.

Direção de Arte Cinema & Produção
Live Marketing Roteiro
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Trabalhos

2.
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Contato

3.

Muito obrigado pela visita! Não esqueça seus pertences
ao sair da sala, e cuidado com os degraus.

Deposite aqui suas sugestões, propostas ou elogios.

Se preferir, pode contatar diretamente a administração nos canais:

Ah, você ficou até o fim!

Que tal descontrair e ler um dos meus

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Contos

4.

Garanto que você vai se surpreender!

  • Os Visitantes
  • 22h48

Tudo estava imerso no mais profundo silêncio, e, ainda assim, Simone não conseguia se concentrar no livro que jazia aberto em seu colo. A poeira ao seu redor quietamente espiralava, iluminada pelos parcos raios de sol que entravam sorrateiros pela fresta da cortina. Os ponteiros do relógio moviam-se vagarosamente a passos abafados. Até a mosca que errava pelo cômodo parecia consciente do volume de seu voo. Mesmo assim, os olhos de Simone pairavam sobre a página sem absorver uma palavra sequer.

Sentada enrijecida em uma poltrona de frente para a janela, ela incansavelmente levava o discreto pingente de um lado para o outro do pescoço, enquanto os ouvidos tentavam captar todo e qualquer barulho que irrompia contra aquela quietude. Lá embaixo, na rua, uma buzina soou, e ela instintivamente levantou os olhos para a janela. Seus batimentos pulsaram forte nos ouvidos, gerados pelo súbito pico de expectativa. Mas o automóvel passou decididamente reto pela via, até sair por completo de seu campo sonoro. Sem perceber que segurava a respiração, Simone expirou e lançou um olhar para o relógio: já era quase cinco e meia da tarde. Antes que a preocupação a assolasse, ela se voltou para o livro, já nem sabendo mais em qual parágrafo estava.

De repente, incerta se segundos ou horas depois, passos ecoaram do lado de fora do apartamento. Sua respiração parou novamente. Sapatos exageradamente pesados se chocavam contra os degraus – mais de um par deles, com certeza. Havia vozes, mas estavam abafadas demais para serem compreendidas. O nó no estômago de Simone esperava que fossem vizinhos perdidos perambulando pelo prédio, ou o zelador junto do eletricista em alguma ronda técnica pelos andares. Porém, suas esperanças logo foram aniquiladas quando o botão da campainha foi levemente pressionado: um ameaçador ding-dong rasgou o silêncio e ribombou pelo corredor de entrada.

Tal como um tiro, o som atravessou o corpo de Simone e instalou o pânico em seu olhar; um frio cortante na espinha a aprisionou no assento. Um turbilhão de pensamentos e lembranças embaralhadas invadiu sua mente, enquanto ela tentava inutilmente afastá-los com o ingênuo questionamento de quem poderia ser àquela hora, afinal, não recebera nenhuma notificação do porteiro. A vizinha do quarto andar não mencionara algo como um cafezinho com bolo ainda naquela semana?

Quando fechou o livro e buscou apoio para se levantar do assento, Simone notou que suas mãos tremiam incontroláveis. A mente esforçava-se para se manter focada no momento, mas o corpo respondia de outro jeito; os trôpegos pés esbarraram na mala que jazia ao lado da poltrona, e foi preciso se escorar no aparador de bebidas no canto para não cair. Os copos e garrafas tilintaram com o golpe repentino.

Simone ouvira aquele som pela última vez não fazia muito tempo. Contudo, por mais que se esforçasse, não conseguia remontar com precisão o modo como a cena se desdobrara diante dela naquela noite: as gargalhadas e a densa nuvem de cigarro que preenchiam o lugar tiravam-lhe a nitidez da lembrança agora. Mas, sem dúvidas, havia um brinde, um bruto encontro de quatro copos cansados, preenchidos de uísque, que se erguiam no ar em memória ao Devanir. A tudo ela assistia silenciosa, de pé atrás da cadeira de Eugênio; insistira com ele para ser trazida, na promessa de não atrapalhá-los de jeito nenhum. Pois, apesar das descontrações, um peso enorme de preocupação e ansiedade preenchia a feição de todos. O único que parecia abraçar plenamente essa gravidade era Dimas, sentado à cabeceira da mesa com dezenas de papéis espalhados à sua frente. Com um aceno, ele apanhou um cigarro do bolso e deixou o som do fumo se consumindo em brasas atrair a atenção do grupo.

“O que aconteceu hoje foi, sem dúvidas, uma vitória, mesmo com as eventuais perdas”, ele começou, “mas não vai demorar muito para virem em peso atrás de nós.” Estendeu o braço para bater o cigarro contra o cinzeiro. “Eu passei a tarde em comunicação com a ALN, e a nossa prioridade agora é fazer de tudo para nos protegermos. Não quero imaginar o que pode acontecer se pegarem qualquer um de nós. Por isso, já estamos vendo passagens, documentos, tudo que possa nos tirar do país em segurança o mais breve possível.”

O grupo trocou olhares vacilantes entre si. Simone, por sua vez, apenas apertou firmemente os ombros de Eugênio, antes da conclusão de Dimas:

“Estejam preparados para os próximos dias. Nos falaremos de novo muito em breve.”

Um segundo soar da campainha varreu as lembranças da mente de Simone. Lentamente, ela se virou em direção à saída e deixou a sala de estar para trás. Suas mãos seguiam coladas firmes à lateral do corpo, enquanto seu semblante ainda expressava aquele medo enebriado pela curiosidade. Quando entrou no corredor de entrada, o vento e o escuro acolheram-na de modo atípico. Na maior parte do tempo, as arandelas permaneciam ligadas, não somente para iluminarem a passagem, mas também os quadros que as interpolavam: retratos de momentos felizes diversos entre ela e Eugênio, que agora se encontravam imersos sem vida no breu.

Uma das únicas iluminações no caminho era uma faixa estreita de luz natural que subia pela parede, proveniente da porta entreaberta do quarto deles. Ao passar por ela, Simone contemplou de relance a cama ainda por fazer misturada às peças de roupa espalhadas e sentiu os olhos pesarem de imediato. Praticamente não dormira naquela noite – ou em qualquer uma das anteriores. Por mais que se enrolasse nos cobertores, ainda sentia um frio cortante a atormentá-la durante toda a madrugada; ainda sentia às suas costas o fantasma da cama vazia.

Isso porque a promessa de Dimas se cumprira mais rápido do que ela esperava. Um telefonema para Eugênio no meio da tarde subitamente mudou sua sorte. À noite, ao se deitarem, algo ainda o perturbava: estava estranho, mais bruto do que o normal; nem a tocou direito. Seus lábios carregavam um gosto amargo irreconhecível, quase como um mau agouro. Quando ele, então, saiu de cima dela, antes que a deixasse se aproximar para abraçá-lo, ele se esquivou e foi abrir a janela. O vento noturno que irrompeu no quarto fez Simone instintivamente apertar o cobertor contra o corpo nu. Após os angustiantes segundos tomados por Eugênio para acender um cigarro, ele enfim falou:

“O Dimas ligou agora de tarde.”

Diante da hesitação dele, ela fingiu manter a calma ao perguntar sobre o que se tratava.

“Tem um barco saindo de Ubatuba amanhã de madrugada. Já providenciaram tudo pra eu partir”, ele respondeu pausadamente.

O coração dela acelerou com a adrenalina. Ir? Para onde iriam? E como? Eugênio se voltou para ela com uma ternura no olhar tal qual a de um pai resoluto perante a pergunta de seu filho.

“Não, Simone, só eu vou. Pelo menos por agora. Você vai logo depois com os outros.”

A frase produziu-lhe um efeito instantâneo. Uma dor dilacerante a tragou para dentro de si, até uma região que Simone não tinha certeza se conhecia, e a instigou a querer gritar em resposta o quanto preferiria ser apunhalada com uma faca certeira no peito a ter que ouvi-lo dizer-lhe aquilo. Houve uma mistura súbita de medo, ansiedade, desespero e frustração, que a impossibilitou de processar tudo devidamente. Naquele momento, seu corpo apenas conseguiu reagir da forma que o instinto lhe permitia: de um pulo, ela escancarou o guarda-roupa e arrancou desenfreadamente as camisas dos cabides, lançando-as sobre a cama. Não aceitaria ser deixada para trás, ser apartada de Eugênio dessa forma; estava certa de que o barco comportaria mais uma pessoa tranquilamente, afinal, ela nem era tão grande assim! Ninguém iria notar sua presença ali, encolhida no cantinho. Todo o restante de seu corpo pareceu concordar de prontidão com o plano.

Porém, com um aceno, Eugênio apanhou-a pelos braços e a imobilizou. Ao encará-lo, o fervor de Simone abaixou, e ela encontrou algo indecifrável nos portais da alma dele, uma opacidade impotente, forte o bastante para fazê-la finalmente verter em lágrimas todo o temor e angústia que há dias assolavam-na. Quando ele a envolveu em um abraço protetor, Simone se agarrou ao seu corpo com todos os ânimos que lhe restavam, numa última tentativa de retê-lo ali ao lado. A convicção dele, entretanto, fora ainda maior: com enorme facilidade, ele se desvencilhou e rumou para fora do cômodo sem hesitação. Minutos depois, ela ouviu a porta de entrada se fechar ao longe com um rangido.

Diante da lembrança, novas lágrimas vieram embaçar a vista de Simone. Aquela mesma porta erguia-se agora à sua frente, a maçaneta a uma braçada de distância. Subitamente, murros violentos contra a madeira fizeram-na tremer. A fraca chama de esperança dentro dela balançava freneticamente, desesperada à procura de otimismos para se manter acesa.

Desde que Eugênio partira, ela vinha tentando se manter entretida, a fim de controlar o desespero iminente, aquela espécie de oscilação caótica entre o que foi e o que será. Não podia deixar tal sentimento dominá-la, ou tudo desandaria: ainda ecoava em sua mente as precisas instruções que recebera dois dias antes. Aqueles homens opulentos irromperam do nada em sua casa, cerrando apressadamente todas as cortinas, enquanto o líder deles, cujo nome ela já não lembrava mais, lhe enfurnara na poltrona e repetira diversas vezes o plano de resgate com ela. Simone obrigou-se a memorizar todos os detalhes, pois sabia que sua sobrevivência então dependia daquilo:

“Depois de amanhã, dois homens virão te buscar por volta das cinco da tarde. Esteja pronta com uma mala simples, só com o básico para a viagem. Eles vão te levar até o local combinado, e de lá você vai encontrar o Eugênio.”

À menção do nome do companheiro, Simone sentiu uma pontada dolorosa de remorso, mas buscou ignorá-la a fim de continuar ouvindo:

“Você precisa ser bastante discreta: não fique saindo de casa, não atenda telefonemas, não receba visitas inesperadas. Quando for a hora, um fusca amarelo vai passar buzinando três vezes aqui na frente e vai te esperar lá na esquina de cima. Com a situação do jeito que está, não dá pra gente te ligar ou vir te buscar aqui na porta. Você me entendeu? Fique atenta e tome cuidado.” Diante da expressão nervosa dela, o líder compadeceu-se e lhe disse ternamente: “Vai ficar tudo bem, você vai ver!”

Entretanto, quando a maçaneta foi forçada impetuosamente, prestes a ceder, Simone soube o quanto aquela frase já não mais se tornaria verdade. O futuro sombrio de tortura e devastação que a aguardava atrás da porta lançou-se sobre todo e qualquer resquício de esperança que havia nela. Contudo, isso já não lhe era uma surpresa: no fundo, ela estava há tempos esperando por aqueles visitantes.

Uma voz cortante do outro lado enfim falou:

“Senhora Simone Barbosa, nós sabemos que a senhora está em casa. Poderia nos acompanhar, por favor? Gostaríamos de te fazer algumas perguntas rápidas.”

A lágrima pendurada enfim escorreu silenciosa por sua bochecha, enquanto ela sentia o chão abandonar seus pés. Então, com um estrondo impetuoso, a porta foi arrombada.

Em breve.